domingo, 18 de junho de 2017

Um país sem comando


Artigo de J. R. Guzzo, publicado na revista Exame, observando que Michel Temer saiu de uma costela do PT "e só chegou aonde está porque serviu em tudo a Lula e aos companheiros":


A “Justiça eleitoral” (despropósito de fabricação 100% nacional; deveria dar ao Brasil as eleições mais limpas do planeta, mas jamais conseguiu impedir que a política brasileira seja controlada por essa massa de escroques que está sempre aí) julgou em seu Tribunal Superior Eleitoral, a mais alta de suas instâncias, a seguinte questão: houve irregularidades, especialmente na parte financeira da campanha do PT e de Dilma Rousseff, nas eleições presidenciais de 2014?

Por exemplo: correu tudo direitinho, conforme a lei, com a recepção e o dispêndio dos 300 milhões de reais que a candidata vencedora declarou ter gasto para ser eleita? A dúvida colocada em julgamento jamais teve a mais remota semelhança com uma dúvida. Há quase três anos há certeza praticamente científica de que a campanha eleitoral que levou Dilma à Presidência da República foi um dos mais prodigiosos episódios de roubalheira jamais vistos na história universal da política.

Ainda assim, nossos juristas e demais guardiães da majestade das leis brasileiras passaram esse tempo todo meditando sobre o caso — será que alguém realmente meteu a mão em alguma coisa? — e só agora conseguiram levar o caso a julgamento. A infração era gravíssima: a pena prevista consistia na perda do mandato para a presidente eleita em 2014 caso tivesse acontecido alguma coisa de errado com aquele oceano de dinheiro mencionado acima. Dá para levar a sério? Além do mais, Dilma, deposta pelo impeachment, já perdeu o mandato há mais de um ano; não era possível tirar-lhe a mesma Presidência pela segunda vez. É óbvio, em tais condições, que a esta altura chegamos ao avesso do avesso do avesso em matéria de disparate.

Se não há mais Dilma Rousseff, é preciso se contentar com Michel Temer. O processo contra ela, por essa sequência de aberrações, passou a ser o processo contra ele. É sensacional. O autor da ação contra a eleição de Dilma é o PSDB, na época o partido de oposição mais indignado com a ex e com o PT — mas hoje, desgraçadamente, enfiado até o talo no governo de Temer, seu sucessor constitucional.

O PT e o ex-presidente Lula, de seu lado, gritam e mandam gritar todo santo dia “Fora Temer”. Mas seus advogados no processo do TSE, agindo em defesa de Dilma e da perfeita lisura da campanha de 2014, ficaram obrigatoriamente contra a cassação da chapa — e, por via de consequência, como diria o falecido vice-presidente Aureliano Chaves, a favor de Temer e de sua permanência no cargo. Ficamos, então, diante de um xeque-mate que diz tudo sobre como o Brasil é governado hoje: o TSE conseguiu o feito de condenar-se a escolher entre duas decisões erradas.

A história toda é acompanhada de algum lugar seguro, provavelmente às gargalhadas e com champanhe, pelos irmãos Wesley e Joesley Batista — possivelmente os maiores corruptores confessos que já apareceram no Brasil nos últimos 500 anos. Receberam, em troca de suas confissões, um inédito perdão da Procuradoria-Geral da República e de um ministro do Supremo Tribunal Federal. Não uma redução de pena ou algum benefício compreensível; foi uma absolvição sem julgamento. Talvez aguardem, agora, a medalha da Ordem do Rio Branco.

O quadro se completa, até agora, com a constatação de que ninguém governa. Na verdade, desde que a maioria dos eleitores brasileiros tomou a funesta decisão de dar um segundo mandato à ex-presidente Dilma, o país vive sem governo. Dilma não governou de 2014 para cá, e Temer não governa desde seu primeiro dia no Palácio do Planalto, ou governa apenas um bazar de trocas.

Além disso, saiu de uma costela do PT e só chegou aonde está porque serviu em tudo a Lula e aos companheiros. Não poderia ser diferente do que está sendo, pois não apagou seu passado quando subiu de cargo; ninguém consegue. Toma, agora, o mesmo remédio que viu Lula e o PT aplicar em todos os adversários.
BLOG ORLANDO TAMBOSI

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